sexta-feira, 6 de agosto de 2010

SÍNDROME DE SHIHAN OU COMO SUCUMBIR AO LADO NEGRO DA FORÇA

Agora um texto meu. Apesar disso, tem alguma qualidade e pode ter alguma utilidade quando a gente começar a se achar a ultima bolacha do pacote.



SÍNDROME DE SHIHAN OU COMO SUCUMBIR AO LADO NEGRO DA FORÇA

Todos aqueles que chegam à faixa-preta já experimentaram a dureza que este caminho exige.

Penso que ninguém, ao começar, levou a sério a possibilidade de tornar-se um yudansha (detentor da faixa-preta).

No inicio você não sabe nem como se portar, o que dizer e, principalmente, como ficar calado.

Mas o tempo passa e você descobre que já não é mais um novato e que outros estão agora tentando aprender o que para você, hoje, é obvio, de tão natural.

Começa a crescer em você o monstro do ego inflado. Você passa a ser responsável por auxiliar nas aulas, dando um pequeno auxílio ao professor, normalmente preocupado em atender especialmente os iniciantes.

É difícil, mas seu professor alerta a todos da tentação de sentirem-se superiores, (geralmente acompanhando a fala com uma demonstração bem pequena do quanto você ainda precisa estudar e se desenvolver).

Chegam os exames, após um tempo e você está tão absorvido em aprender as técnicas mais avançadas dos kyus (graduações abaixo da faixa-preta) que algumas vezes esquece de ajudar seus colegas mais novos, pelos caminhos que você mesmo até bem pouco tempo percorreu com dificuldade.

Aí chega o principal exame da sua vida na arte marcial, aquele do qual você nunca esquecerá: na frente de seus sempai, de seus mestres, professores e até mesmo dos novatos você arfa, transpira e exulta quando lhe pedem, finalmente, para cumprimentar seu parceiro e retornar ao seu lugar.

Neste momento em que você é reconhecido como mais um faixa-preta do seu grupo é que a receita pode desandar.

A tentação é forte; tão forte que seu espírito, que parecia forjado pelas orientações, broncas e esforço de seu professor pode fraquejar, e aí, sem você se dar conta, se instala uma doença mais ou menos fatal: A síndrome de shihan, que consiste numa (quase) irresistível tentação à:

1- Após pesquisar, “descobrir” um meio mais “eficiente” de realizar uma técnica: mais eficiente até do que a forma como seu mestre faz;

2 – Colocar a prova suas pesquisas apenas nas condições controladas por você: apenas com seus amigos e possíveis alunos;

3 – Deixar mais ou menos claro, que chegou aonde está por esforço próprio, expondo as “mazelas” da atuação do seu anteriormente modelo que foi seu professor;

4 – Dificultar sempre que alguns alunos ou desafetos lhe façam uma técnica: (ora, tem se de manter minha posição!)

5 – Acostumado a ter a última palavra, agora nosso guerreiro já nem presta atenção às palavras ou aulas do mestre: está se “desenvolvendo” em um “caminho próprio”, ainda que não diga isto abertamente;

6 – Sua busca de autonomia não vê limites; seu mestre, (ex)modelo e referência torna-se quase um estorvo, dentro de seu novo e limitado modo de entender o desenvolvimento;

7-As avaliações sobre seus alunos só são acuradas quando feitas por si mesmo. Para ele outros professores não são capazes de perceber as sutilezas que indicam o desenvolvimento maduro de seus alunos.

Enfim, a síndrome de shihan é uma doença que ilude suas vitimas a acreditarem que, após certo tempo, suas pesquisas (e elas mesmas) estão acima de quaisquer considerações hierárquicas ou simples bom senso.

Se uma mudança dá certo no limitado círculo de seus alunos, por ele é considerada como dogma a ser consagrado.

Ora, seu mestre não só acumula muito mais tempo no caminho da arte, como exerce seus estudos e pesquisas com dezenas ou centenas de alunos, iniciantes e graduados, tanto em seu próprio dojo quanto em cursos e seminários. Nesse ínterim, o mestre vai separando as técnicas que serão revistas/aperfeiçoadas, com o cuidado de quem trata uma preciosa herança, pois tem consciência de que este também será seu legado.

Após cingir-se de preto, o praticante deve meditar e refletir, de forma consistente sobre quão enganosa pode ser a tentação de ter, sempre, a ultima palavra...

Seria o caso, então, de encerrar a pesquisa somente nas mãos do mestre? Certamente que não. Isso negaria a chance de ouro de, nas dúvidas surgidas, haver o verdadeiro crescimento: Aquele fruto de experiências compartilhadas, fraquezas equacionadas e a certeza de muito chão à frente!

Junior Soares
Aikikai Belém-Shikanai

Um comentário:

  1. Brilhante explanação Sensei, um dia esse momento chegará para mim e eu lembrarei das sábias palavras do meu Mestre!

    Marcus Macêdo

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